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Cirurgia de coluna por vídeo

Cirurgia de coluna por vídeo ganha espaço no Brasil ao reduzir tempo de internação

Como a técnica endoscópica mudou o tratamento de hérnias de disco e outras doenças degenerativas da coluna vertebral

A dor na coluna é a segunda causa mais frequente de consultas médicas no país, atrás apenas da cefaleia.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, conduzida pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostraram que 21,1% dos adultos brasileiros relataram algum problema crônico na coluna, o que equivale a cerca de 19.206 indivíduos em uma amostra de 90.846 entrevistados.

Em números absolutos, levantamentos do próprio IBGE indicam que aproximadamente 5,4 milhões de brasileiros convivem com hérnia de disco.

A dimensão do problema fica mais clara quando se olha para o mercado de trabalho. Em 2024, conforme levantamento do Ministério da Previdência Social, mais de 172 mil trabalhadores precisaram se afastar de suas funções por causa de hérnia de disco.

Somados os afastamentos por dorsalgia, os problemas de coluna responderam por mais de 377 mil benefícios por incapacidade temporária ao longo do ano, um crescimento de 39% em relação ao período anterior. Não se trata apenas de uma questão clínica. É um problema econômico que atinge empregados, empregadores e o sistema previdenciário.

Parte dessa conta poderia ser menor se o acesso a diagnóstico precoce e a técnicas cirúrgicas menos agressivas fosse mais amplo. E é justamente nesse ponto que a medicina da coluna vertebral mais avançou nas últimas duas décadas.

Da cirurgia aberta ao endoscópio

Durante décadas, o tratamento cirúrgico da hérnia de disco lombar seguiu um caminho único: a cirurgia aberta, com incisões longas, afastamento da musculatura paravertebral e um período de recuperação que podia se estender por meses.

O paciente saía do centro cirúrgico com dor significativa, precisava de repouso prolongado e muitas vezes ficava semanas sem conseguir retomar atividades simples como tomar banho sozinho ou subir uma escada.

O primeiro grande salto aconteceu com a microdiscectomia, considerada por anos o padrão-ouro para tratamento de hérnia de disco lombar. A incisão diminuiu, o uso de microscópio cirúrgico aumentou a precisão e o tempo de internação caiu.

“Ainda assim, o procedimento exigia anestesia geral, afastamento de tecidos musculares e, em boa parte dos casos, pelo menos dois ou três dias de hospitalização”, comenta Dr. Aurélio Arantes, ortopedista e cirurgião de coluna em Goiânia.

A virada mais recente veio com a cirurgia endoscópica da coluna vertebral. Nessa técnica, o cirurgião opera por meio de um portal único, inserindo um endoscópio com câmera de alta definição através de uma incisão de aproximadamente 8 milímetros.

A imagem ampliada é projetada em um monitor externo, permitindo que o profissional visualize com nitidez as estruturas nervosas, o disco lesado e os fragmentos herniados.

A diferença prática para o paciente é grande. Em cerca de metade dos casos, a cirurgia endoscópica pode ser feita sob sedação com anestesia local, sem necessidade de anestesia geral. A alta hospitalar costuma acontecer no mesmo dia do procedimento.

A dor pós-operatória é menor porque os músculos não são cortados nem afastados, apenas dilatados. E o retorno às atividades cotidianas acontece em dias ou poucas semanas, não em meses.

Estudo publicado por pesquisadores da rede Amato, que avaliou pacientes submetidos à discectomia endoscópica percutânea lombar entre 2014 e 2017, registrou melhora estatisticamente significativa já nas primeiras 48 horas após o procedimento. A evolução se manteve positiva ao longo das 12 semanas seguintes de acompanhamento.

Quando a cirurgia é necessária

É preciso deixar claro: a maioria das pessoas com hérnia de disco não vai precisar de cirurgia. Estimativas da Sociedade Brasileira de Coluna indicam que entre 80% e 90% dos pacientes respondem bem ao tratamento conservador, que inclui fisioterapia, fortalecimento muscular e medicação adequada.

O Ministério da Saúde aponta que, com acompanhamento correto, a maior parte dos portadores consegue retomar suas rotinas em cerca de um mês. O problema está nos outros 10% a 20%.

Quando o tratamento conservador falha depois de semanas ou meses, quando há perda de força nos membros, alteração de sensibilidade ou compressão nervosa prolongada, a intervenção cirúrgica passa a ser não apenas recomendada, mas urgente.

A demora em procurar avaliação especializada nesses casos pode transformar um quadro reversível em dano neurológico permanente.

É nessa faixa de pacientes que a cirurgia endoscópica na coluna tem mostrado resultados expressivos. A técnica permite remover o fragmento herniado com precisão milimétrica, descomprimindo o nervo sem comprometer as estruturas adjacentes.

O risco de infecção é menor porque a irrigação contínua com soro fisiológico durante o procedimento mantém o campo cirúrgico limpo. E a preservação da musculatura diminui a chance de instabilidade da coluna no pós-operatório.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar incluiu a cirurgia endoscópica da coluna no rol de procedimentos com cobertura obrigatória desde 2021. Isso significa que convênios e seguros de saúde são obrigados a cobrir o procedimento quando há indicação clínica comprovada.

Quem pode se beneficiar da técnica endoscópica

A lista de condições tratáveis por endoscopia de coluna cresceu nos últimos anos. Além da hérnia de disco lombar, que é a indicação mais comum, a técnica já é aplicada em casos de estenose do canal vertebral, hérnia de disco cervical, cistos sinoviais e algumas formas de degeneração discal.

Um ponto que merece atenção é o perfil dos pacientes. A cirurgia endoscópica se tornou uma alternativa importante para pessoas idosas ou com comorbidades, que muitas vezes não suportariam uma cirurgia aberta convencional com anestesia geral prolongada. Por ser um procedimento de menor porte, com menor sangramento e menor tempo cirúrgico, o risco anestésico cai de forma relevante.

Atletas amadores e profissionais também são beneficiados. Para quem depende da integridade muscular para manter performance e rotina de treinos, a preservação da musculatura paravertebral durante a endoscopia representa um ganho concreto. O retorno ao esporte costuma acontecer semanas antes do que seria possível com técnicas convencionais.

Ainda assim, nem todo caso de hérnia de disco pode ser resolvido por endoscopia. Deformidades complexas da coluna, instabilidades graves e determinados tipos de estenose ainda exigem abordagens mais amplas.

A avaliação individualizada por um especialista em coluna vertebral continua sendo o passo mais importante antes de qualquer decisão.

O que muda na recuperação

Conforme os melhores ortopedistas de Goiânia, a diferença entre o pós-operatório de uma cirurgia aberta e o de uma cirurgia endoscópica não é apenas uma questão de conforto. Ela tem impacto direto sobre a vida profissional e financeira do paciente.

Um trabalhador que passa por cirurgia aberta convencional pode ficar de 60 a 90 dias afastado de suas funções. No caso de atividades que exigem esforço físico, o prazo pode ser ainda maior. São meses sem renda ou dependendo de benefícios previdenciários, além do custo emocional de se sentir incapaz.

Na cirurgia endoscópica, o cenário muda. Pacientes com atividades laborais leves conseguem retornar ao trabalho em duas a quatro semanas. Quem exerce funções que demandam mais esforço pode precisar de um pouco mais de tempo, mas raramente ultrapassa os 45 dias. A fisioterapia pós-operatória é iniciada mais cedo, o que acelera a recuperação funcional.

Quando se considera que os problemas de coluna estão entre as duas principais causas de afastamento do trabalho no Brasil, a redução do tempo de inatividade proporcionada pelas técnicas menos invasivas ganha relevância que vai além do consultório. É um dado de saúde pública.

A importância de buscar profissional com formação específica

Ortopedia é uma especialidade ampla. Um ortopedista geral pode tratar fraturas, lesões musculares, problemas articulares e diversas outras condições do aparelho locomotor.

Coluna vertebral, entretanto, é uma subespecialidade que exige formação complementar, treinamento cirúrgico específico e volume consistente de procedimentos.

A diferença não é protocolar. Ela aparece no resultado. A Sociedade Brasileira de Coluna, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia mantêm programas de formação e certificação que atestam a qualificação do profissional para operar a coluna vertebral.

Antes de tomar qualquer decisão sobre tratamento cirúrgico, vale checar se o médico possui título de especialista reconhecido por essas entidades, qual o volume de procedimentos que realiza por ano e se trabalha com as técnicas mais atuais.

Os tratamentos minimamente invasivos na coluna evoluíram a um ponto em que a formação do cirurgião faz tanta diferença quanto a tecnologia disponível na sala de operação.

Buscar segunda opinião é outro passo que deveria ser mais comum. Em uma condição que afeta a estrutura responsável por sustentar o corpo e transmitir os impulsos nervosos para os membros, a prudência na escolha do tratamento nunca é excessiva.

O peso dos números

A OMS estima que a lombalgia afetou 619 milhões de pessoas em 2020 e projeta que esse número chegue a 843 milhões até 2050. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 encontrou prevalência de 21,1% de problemas crônicos de coluna na população adulta.

A pandemia agravou esse cenário: levantamentos posteriores indicaram que o índice subiu para cerca de 33,9%, possivelmente influenciado pelo aumento do sedentarismo e pelas condições improvisadas de trabalho remoto.

“A hérnia de disco ocupa a posição de primeira causa de concessão de auxílio-doença e terceira causa de aposentadoria por invalidez no país. Não é uma condição que escolhe classe social, profissão ou região. Atinge igualmente o trabalhador rural no interior de Goiás, o programador em São Paulo e a professora no Recife”, ressaltam especialistas do COE, centro de ortopedia localizado em Goiânia.

O que muda, de um perfil para outro, é o acesso à informação e ao tratamento adequado. Um paciente que busca avaliação especializada nos primeiros sinais de comprometimento neurológico tem chances muito maiores de resolver o problema sem sequelas do que aquele que espera meses ou anos acreditando que a dor vai passar sozinha.

O que levar para o consultório

Para quem está lendo esta matéria e convive com dor persistente na coluna, vale organizar algumas informações antes de procurar um especialista.

A localização exata da dor, há quanto tempo ela existe, se irradia para as pernas ou braços, se piora ao ficar sentado ou em pé por muito tempo, se há formigamento, dormência ou perda de força. Esses dados ajudam o médico a direcionar a investigação e a escolher os exames de imagem adequados.

Ressonância magnética é o exame mais completo para avaliar hérnias de disco, compressões nervosas e degeneração discal. Não substitui a avaliação clínica, mas complementa o diagnóstico de forma decisiva. Levar exames anteriores, laudos e relatórios de tratamentos já realizados também acelera o processo.

A decisão entre tratamento conservador e cirúrgico não precisa ser tomada com pressa, salvo nos casos de urgência neurológica. Porém, tampouco deve ser adiada indefinidamente.

O equilíbrio está em buscar orientação qualificada no tempo certo, com profissionais que tenham formação e experiência comprovadas em cirurgia da coluna vertebral.