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Preenchimento com ácido hialurônico

Preenchimento com ácido hialurônico: o que a ciência diz sobre o procedimento que mais cresce no Brasil

Procura por aplicações injetáveis de ácido hialurônico aumentou 5,2% em um ano no mundo, e o Brasil já ocupa o segundo lugar em volume de procedimentos estéticos não cirúrgicos

O Brasil realizou mais de 176 mil procedimentos de preenchimento com ácido hialurônico em 2024, segundo o relatório anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS).

O número coloca a substância como o segundo procedimento não cirúrgico mais procurado no país, atrás apenas da toxina botulínica. No mundo, foram 6,3 milhões de aplicações no mesmo período, o que representa um aumento de 5,2% em relação ao ano anterior.

Os dados indicam que o interesse pelo ácido hialurônico deixou de ser uma questão restrita ao universo das celebridades. Nas últimas duas décadas, o procedimento migrou dos centros cirúrgicos para consultórios dermatológicos e clínicas especializadas, tornando-se acessível a um público mais amplo.

O Brasil, que já lidera o ranking global de cirurgias plásticas, com 2,3 milhões de intervenções cirúrgicas realizadas em 2024, consolida também uma posição de destaque nos procedimentos minimamente invasivos.

Mas a popularização traz junto uma pergunta que nem sempre é respondida com clareza: o que exatamente faz o ácido hialurônico, por que ele funciona e, mais importante, quando vale a pena considerar o procedimento?

Uma substância que o próprio corpo produz

O ácido hialurônico é um glicosaminoglicano presente em diversos tecidos do corpo humano. Na pele, ele se concentra na derme, onde preenche os espaços entre as células e contribui para a hidratação, a firmeza e a elasticidade do tecido cutâneo.

Do total de ácido hialurônico presente no organismo, cerca de 56% está na pele. A substância funciona como uma espécie de reservatório de água, capaz de reter volumes significativos de líquido e manter o tecido hidratado por dentro.

Enquanto o colágeno forma a estrutura que sustenta a pele, o ácido hialurônico ocupa o papel de preenchimento entre essas fibras. A analogia mais usada por dermatologistas compara a relação entre os dois: se o colágeno são os tijolos, o ácido hialurônico é o rejunte que mantém tudo unido e estável.

O problema começa com o tempo. A partir dos 25 anos, a produção natural dessa substância pelo organismo começa a diminuir. O metabolismo celular desacelera, e o corpo passa a repor menos do que consome.

Nas mulheres, essa queda é percebida mais cedo. Nos homens, os sinais costumam aparecer por volta dos 30. Conforme a especialista em dermatologia Dra. Mariana Cabral, de Goiânia, fatores externos como exposição solar, poluição, tabagismo e privação de sono aceleram esse processo.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) aponta que a combinação entre a queda na produção interna e o acúmulo de danos ambientais resulta nos sinais mais visíveis do envelhecimento: rugas, linhas de expressão, perda de volume facial e ressecamento.

O que mudou na técnica de aplicação

O preenchimento com ácido hialurônico existe há mais de duas décadas, mas a técnica evoluiu. Nos primeiros anos, o objetivo era quase exclusivamente corrigir sulcos profundos, como o nasogeniano (popularmente chamado de “bigode chinês”).

Hoje, as aplicações abrangem uma variedade maior de regiões do rosto: maçãs, contorno da mandíbula, lábios, olheiras e têmporas. A lógica deixou de ser apenas corretiva e passou a incluir a reposição de volume perdido com o envelhecimento.

Uma das razões pelas quais o procedimento ganhou espaço é sua reversibilidade. Diferentemente de preenchedores permanentes como o PMMA (polimetilmetacrilato), o ácido hialurônico é absorvido pelo organismo ao longo do tempo, com duração média de seis a 18 meses, dependendo da região tratada e do metabolismo do paciente.

Em caso de resultado insatisfatório ou complicação, existe a possibilidade de dissolução com hialuronidase, uma enzima que degrada a substância.

A SBCP reforça que esse perfil de segurança é o que diferencia o ácido hialurônico dos demais preenchedores disponíveis. Estudos publicados no Brazilian Journal of Health Review, com base na análise de 43 publicações científicas, concluíram que a substância se mostrou geralmente segura, com a maioria dos efeitos adversos classificados como transitórios e de gravidade leve a moderada.

Quem procura e por quê

O perfil do paciente que busca o preenchimento com ácido hialurônico mudou. Há dez anos, a procura era concentrada em mulheres acima dos 45 anos que desejavam reverter sinais de envelhecimento já instalados.

Hoje, uma parcela significativa dos pacientes tem entre 30 e 40 anos e busca o procedimento com intenção preventiva. A lógica é simples: repor o ácido hialurônico antes que a perda de volume se torne pronunciada tende a produzir resultados mais sutis e naturais.

Pesquisar as melhores clínicas de estética da sua região, com profissionais que tenham formação em dermatologia ou cirurgia plástica e estejam vinculados às sociedades médicas da especialidade, é o primeiro passo para quem considera o procedimento.

A escolha do profissional interfere diretamente no resultado, porque a técnica de aplicação, o tipo de gel utilizado e o planejamento facial são decisões que exigem conhecimento anatômico aprofundado.

Outro fator que contribuiu para a mudança de perfil foi a queda no estigma. O preenchimento facial deixou de ser associado a resultados exagerados e passou a ser visto como parte de uma rotina de cuidados.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica concordam em um ponto: quando feito por profissional habilitado, com produto registrado na Anvisa e em ambiente adequado, o procedimento oferece riscos baixos e resultados previsíveis.

Os limites do procedimento

A popularidade do ácido hialurônico não elimina os riscos. Complicações como edema, hematomas, nódulos, infecções e, em casos mais graves, obstrução vascular estão descritas na literatura médica. A maioria dessas ocorrências está ligada a aplicações feitas por profissionais sem formação adequada ou em ambientes sem estrutura para atendimento de emergência.

Dados do Instituto Municipal de Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro (IVISA-Rio) revelam que, entre 2021 e 2023, as interdições de clínicas clandestinas de estética aumentaram 600%. O número é um indicativo de que a expansão da demanda atraiu também profissionais sem qualificação e estabelecimentos irregulares.

A escolha do produto também importa. Nem todo gel de ácido hialurônico tem a mesma composição. Existem diferenças na reologia (capacidade de resistir a forças e manter a forma), na concentração e no grau de reticulação, que determinam para qual região do rosto cada formulação é mais indicada.

Um gel com maior capacidade de sustentação serve para a região malar (maçãs do rosto) e mandíbula, enquanto formulações mais fluidas são indicadas para lábios e região periorbital.

Profissionais com experiência no procedimento costumam alertar para o risco da busca por resultados que reproduzam rostos vistos nas redes sociais. Cada face tem anatomia própria, e o papel do ácido hialurônico é valorizar as proporções individuais, não padronizar. Quando usado com técnica e propósito, o preenchimento harmoniza sem transformar.

Prevenção como estratégia, não como urgência

A conversa sobre ácido hialurônico ganha outra camada quando se considera o conceito de prevenção. Não se trata de iniciar procedimentos injetáveis aos 25 anos, mas de entender que o cuidado com a pele é cumulativo.

Proteção solar diária, hidratação adequada, alimentação rica em antioxidantes e acompanhamento dermatológico regular formam a base de qualquer estratégia que pretenda retardar os sinais do envelhecimento.

Os procedimentos preventivos após os 30 têm ganhado espaço nos consultórios médicos justamente porque atuam em uma janela onde a perda de colágeno e ácido hialurônico já começou, mas ainda não comprometeu a estrutura facial de maneira irreversível.

A ideia é intervir com técnicas menos invasivas e de menor volume, preservando a naturalidade e reduzindo a necessidade de correções mais agressivas no futuro.

O preenchimento com ácido hialurônico se insere nessa lógica, mas não é o único recurso disponível. Bioestimuladores de colágeno, toxina botulínica, lasers fracionados e protocolos com skinboosters fazem parte de um arsenal terapêutico que o dermatologista combina de acordo com as necessidades de cada paciente.

O que considerar antes de decidir

O primeiro passo para quem pensa em fazer o procedimento é consultar um dermatologista ou cirurgião plástico com registro no CRM e título de especialista reconhecido pela SBD ou pela SBCP. Essa verificação é simples e pode ser feita no site dos conselhos regionais de medicina.

Na consulta, o profissional deve avaliar a estrutura óssea, a qualidade da pele, o grau de perda volumétrica e as expectativas do paciente antes de propor qualquer intervenção. O planejamento facial precede a aplicação. Não existe protocolo único que funcione para todos.

Outro ponto relevante é a manutenção. Como o ácido hialurônico é absorvido pelo organismo, os resultados não são permanentes. A frequência de retoque varia, mas na maioria dos casos oscila entre oito meses e um ano e meio. O custo acumulado ao longo do tempo deve ser considerado no planejamento.

Por fim, vale lembrar que o preenchimento não substitui os cuidados básicos com a pele. Pacientes que mantêm uma rotina consistente de fotoproteção, hidratação e acompanhamento médico tendem a preservar os resultados por mais tempo e a precisar de volumes menores de produto nas sessões seguintes.

O que os números mostram sobre o futuro

O crescimento de 42,5% nos procedimentos estéticos globais nos últimos quatro anos, conforme apontado pela ISAPS, não dá sinais de desaceleração. O Brasil, que registrou mais de 3,1 milhões de procedimentos estéticos (cirúrgicos e não cirúrgicos) em 2024, é ao mesmo tempo o maior mercado e um dos mais competitivos do mundo na área.

A tendência aponta para procedimentos com menor tempo de recuperação, menor risco e maior previsibilidade de resultado. O ácido hialurônico se encaixa nessa equação por ser biocompatível, reversível e versátil.

Mas a mesma facilidade que popularizou o procedimento exige do paciente uma responsabilidade proporcional: pesquisar o profissional, verificar credenciais, entender os limites da técnica e, acima de tudo, não tomar decisões estéticas com base em filtros de redes sociais.

Os dados da ISAPS reforçam uma tendência que já era perceptível nos consultórios: o cuidado com a aparência se profissionalizou. O paciente de hoje pesquisa, compara e exige segurança. Cabe ao mercado e aos profissionais corresponder a essa maturidade.