A repetição do ciclo de perda e recuperação de peso já é estudada como um fenômeno metabólico com consequências próprias, e não apenas como falha de disciplina do paciente
Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde divulgou a edição mais recente da Vigitel, pesquisa que monitora doenças crônicas nas capitais brasileiras. O número que chamou atenção foi o avanço da obesidade entre adultos: 25,7% da população das capitais e do Distrito Federal, contra 11,8% em 2006. Um aumento de 118% em dezenove anos, que atingiu homens e mulheres, todas as faixas etárias e todos os níveis de escolaridade.
Por trás desse número existe um padrão clínico que se repete em consultórios de todo o país. A pessoa emagrece, fica meses ou anos com o peso reduzido, e depois ganha tudo de volta, às vezes com alguns quilos extras.
A cena é tão comum que ganhou um nome popular, o efeito sanfona, e uma definição técnica, ciclagem de peso. O que a ciência dos últimos anos passou a descrever com mais precisão é o que acontece no corpo entre uma fase e outra, e por que esse retorno é tão frequente.
Para responder à pergunta do título, é preciso olhar para três camadas: o comportamento biológico do tecido adiposo, as respostas hormonais que o organismo aciona quando perde peso, e o contexto em que a alimentação acontece hoje no Brasil.
Uma doença crônica, não um episódio isolado
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) tratam a obesidade como doença crônica e progressiva.
De acordo com uma endocrinologista especialista em emagrecimento de Goiânia, isso tem uma consequência prática: depois de emagrecer, o paciente não foi curado, ele foi tratado. A condição de base continua ali, exigindo acompanhamento contínuo, assim como acontece com hipertensão ou diabetes.
Esse enquadramento contraria a forma como a maioria das pessoas encara o processo. A dieta costuma ser vista como um evento com início, meio e fim, uma espécie de projeto pessoal de três ou seis meses.
Quando o objetivo do ponteiro da balança é atingido, o esforço tende a ser abandonado. É justamente nesse ponto que o reganho começa a se desenhar, mesmo antes do primeiro quilo voltar.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde mostram que a questão não é marginal. Um levantamento do Instituto Nacional de Cardiologia baseado em dados da Vigitel apontou que, somando sobrepeso e obesidade, cerca de 63% da população adulta brasileira está hoje acima do peso.
Até 2009, a maioria ainda tinha peso considerado normal. As curvas cruzaram entre 2010 e 2011 e se inverteram desde então.
O corpo reage à perda de peso com resistência ativa
Quando alguém reduz calorias para emagrecer, o organismo interpreta o movimento como ameaça. A ABESO descreve esse conjunto de reações como uma defesa evolutiva do estoque energético.
A fome aumenta, o gasto calórico cai, e a eficiência metabólica sobe, ou seja, o corpo passa a extrair mais energia de cada refeição. Hormônios envolvidos no controle do apetite, como leptina e insulina, se desregulam no processo.
Um estudo publicado em 2024 pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ), na Suíça, trouxe uma evidência adicional. Os pesquisadores identificaram uma espécie de memória epigenética nas células de gordura.
Após um período de obesidade, os adipócitos retêm marcas químicas que tornam mais provável o retorno ao estado anterior, mesmo depois de a pessoa emagrecer. O achado foi publicado na revista Nature e analisado em tecidos de camundongos e de pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.
A conclusão prática é que o tecido adiposo, uma vez formado em excesso, não se comporta como músculo ou outros tecidos que podem ser reduzidos e esquecidos. Ele mantém uma predisposição celular ao reabastecimento.
O que o efeito sanfona deixa no corpo
Uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicada na revista científica Nutrition Research em fevereiro de 2026 avaliou mulheres com histórico de ciclos repetidos de perda e reganho de peso, comparadas a mulheres sem esse histórico.
O grupo das chamadas cicladoras apresentou maior gordura corporal total, maior acúmulo de gordura visceral e pior perfil cardiometabólico. Também registrou menor atividade da gordura marrom, um tipo de tecido adiposo que gasta energia em vez de armazená-la.
A coordenadora do estudo, pesquisadora Ana Carolina Junqueira Vasques, do Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes do Gastrocentro-Unicamp, explicou à imprensa que o efeito sanfona, ao longo do tempo, provoca uma piora progressiva da composição corporal.
A cada ciclo, o que se recupera é predominantemente gordura, não músculo. O peso da balança pode até voltar ao mesmo ponto, mas o corpo por dentro não é o mesmo.
Esse é um dos motivos pelos quais a ciclagem é considerada mais preocupante do que um sobrepeso estável. Não é só a oscilação do ponteiro que importa, é o que ela deixa cumulativamente.
“A maior parte dos pacientes que chega ao consultório com queixa de reganho não falhou por falta de esforço, mas por ter interrompido o acompanhamento assim que a primeira meta de peso foi atingida. O tratamento clínico da obesidade exige seguimento contínuo, com avaliação periódica de hormônios como tireoide, cortisol e insulina, e ajustes de rota ao longo dos anos, algo muito diferente da lógica de um protocolo fechado de emagrecimento”, afirma Dr. Camila Farias, endocrino especialista em emagrecimento na região de Goiânia.
Por que a recomposição corporal não é só questão de dieta
Outro ponto que a literatura recente reforça é a ligação entre perda de peso e perda de massa muscular. Quando a restrição calórica é agressiva e não vem acompanhada de treino de força e aporte adequado de proteína, boa parte do que se perde não é gordura. É tecido magro. Na volta, o corpo recupera peso, mas a recuperação é desproporcionalmente de gordura.
O resultado, repetido em sucessivos ciclos, é um fenômeno descrito na literatura como obesidade sarcopênica, a presença simultânea de excesso de gordura e déficit de músculo. Ela é mais difícil de tratar, mais associada a diabetes tipo 2 e a doenças cardiovasculares, e mais frequente em quem passou por várias dietas ao longo da vida.
O envelhecimento agrava o quadro. Com o passar dos anos, o organismo responde menos aos sinais que ativam a quebra de gordura, o metabolismo basal reduz, e a manutenção do peso exige intervenção mais estruturada.
Essa é uma das razões pelas quais mulheres na perimenopausa e na menopausa relatam maior dificuldade de emagrecer mesmo repetindo estratégias que funcionaram em décadas anteriores.
O ambiente alimentar brasileiro joga contra
A questão individual encontra um cenário coletivo hostil. A FAO, em seus diagnósticos sobre os sistemas alimentares na América Latina, vem sinalizando que a maior barreira para padrões alimentares saudáveis na região é o custo relativo.
Alimentos ultraprocessados ficaram proporcionalmente mais baratos nas últimas décadas, enquanto frutas, verduras e proteínas in natura acompanharam inflações mais altas.
No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde e dados da Vigitel mostram que o consumo de ultraprocessados segue elevado, mesmo com quedas pontuais, como a observada em refrigerantes. A
Vigitel 2024 identificou ainda outro dado relevante para o metabolismo, 20,2% dos adultos nas capitais dormem menos de seis horas por noite, e 31,7% relatam sintomas de insônia. Privação de sono é fator conhecido de desequilíbrio hormonal, com impacto direto sobre apetite e resistência à insulina.
O Congresso Internacional sobre Obesidade (ICO) 2024, realizado em São Paulo, apresentou projeções da Fiocruz indicando que, mantidas as tendências atuais, 48% dos adultos brasileiros terão obesidade até 2044, e outros 27%, sobrepeso. Três quartos da população adulta vivendo acima do peso, com 130 milhões de brasileiros nessa faixa.
O que muda quando o tratamento é continuado
A pergunta central, então, não é como emagrecer rápido, mas como sustentar a perda de peso no longo prazo. As diretrizes brasileiras de obesidade, revisadas pela ABESO em 2025 e 2026, convergem em alguns pontos.
O primeiro é a importância da avaliação endocrinológica antes e durante o tratamento. Disfunções de tireoide, resistência à insulina, síndrome dos ovários policísticos, alterações de cortisol e deficiências hormonais da menopausa podem tornar o emagrecimento muito mais difícil e, se não tratadas, praticamente inviabilizam a manutenção.
O segundo é o uso criterioso de medicação. A nova geração de análogos de GLP-1 mudou o panorama clínico da obesidade nos últimos anos, mas a diretriz é clara: trata-se de tratamento médico, não de atalho estético. A prescrição exige indicação, acompanhamento e, em muitos casos, uso prolongado, já que a obesidade é crônica.
O terceiro é o cuidado com a composição corporal, não apenas com o peso. Avaliações de bioimpedância, circunferência da cintura e massa muscular passaram a integrar o acompanhamento de rotina justamente para evitar o quadro em que o paciente perde quilos, mas agrava o perfil metabólico.
O quarto é o papel da alimentação baseada em comida de verdade, algo que o próprio Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, reforça desde a sua segunda edição. Reduzir ultraprocessados tem efeito comprovado sobre perda de peso e sobre marcadores de inflamação, independentemente da dieta específica adotada.
Um problema que se repete porque é tratado como evento isolado
A explicação mais honesta para a pergunta do título talvez seja esta: tanta gente emagrece e volta a ganhar peso porque o sistema cultural, comercial e mesmo médico em torno do emagrecimento ainda opera na lógica do projeto de curto prazo.
Promessas de perda rápida, protocolos fechados, comparação com outras pessoas, abandono do acompanhamento assim que o objetivo da balança é alcançado. Tudo isso conversa com a biologia do corpo humano, mas na direção errada.
A pesquisa científica dos últimos dez anos, com contribuições importantes de grupos brasileiros como Unicamp, Fiocruz e Hospital das Clínicas da USP, vai em outro sentido.
Aponta que o corpo tem memória metabólica, que o tecido adiposo tem comportamento próprio, que o peso perdido exige manutenção ativa. Aponta também que obesidade não é sinônimo de fracasso pessoal, é uma condição com determinantes biológicos, ambientais e sociais claros.
Reconhecer isso muda o horizonte do paciente. Em vez de esperar chegar num número e encerrar o esforço, aceita-se que o cuidado é parte da rotina, como é para quem trata pressão ou colesterol. Em vez de buscar a dieta definitiva, busca-se o plano que cabe na vida real e o profissional que acompanha por anos.
Entre o ciclo do emagrece-engorda, que hoje descreve a trajetória da maioria, e o desfecho de manutenção de peso no longo prazo, existe uma diferença principal, e ela não está na força de vontade. Está na estrutura do tratamento.










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