A sensação de ardor que sobe do estômago em direção ao peito é uma das queixas mais comuns nos consultórios brasileiros, mas tratar o sintoma sem investigar a causa pode adiar o diagnóstico de doenças sérias do esôfago.
A cena se repete em milhões de casas brasileiras toda semana. Depois de uma refeição mais pesada, bate aquela sensação de fogo subindo do estômago, às vezes acompanhada por um gosto amargo que chega à garganta.
A resposta quase automática é procurar um antiácido na gaveta da cozinha, tomar um chá caseiro e esperar passar. O problema começa quando esse roteiro se repete por meses ou anos, e a queixa que parecia banal esconde uma doença crônica que pode evoluir de forma silenciosa.
Os números explicam por que o sintoma não deveria ser tratado como detalhe. Um inquérito nacional conduzido em 22 cidades brasileiras com quase 14 mil pessoas encontrou prevalência global de azia em 11,9% da população urbana, e a doença do refluxo gastroesofágico em 7,7% dos entrevistados, segundo dados publicados na revista Arquivos de Gastroenterologia.
Já estudos regionais, como o realizado em Pelotas (RS), chegaram a taxas ainda mais altas: 48,2% das pessoas relataram ter tido pirose no último ano.
Revisões mais recentes em populações urbanas estimam que entre 12% e 20% dos brasileiros adultos convivem com a doença, que é considerada a afecção orgânica mais comum do trato digestivo alto.
O que acontece no corpo quando a queimação vira rotina
Pirose é o nome técnico da sensação de ardor que parte da parte superior do abdome e sobe pelo tórax, às vezes chegando ao pescoço. Ela acontece quando o conteúdo ácido do estômago retorna para o esôfago, órgão que não tem proteção natural contra essa agressão.
De acordo com o especialista em cirurgias do aparelho digestivo em Goiânia, Dr. Thiago Tredicci, a barreira que deveria impedir o refluxo é um anel muscular chamado esfíncter esofagiano inferior, e quando ele relaxa de forma inadequada ou perde tônus, o ácido sobe e irrita a mucosa.
A frequência muda tudo. Um episódio isolado depois de uma feijoada pesada não configura doença. O problema aparece quando a queimação passa a ocorrer duas ou mais vezes por semana, durante pelo menos um mês, conforme critério aceito pelas diretrizes brasileiras e internacionais de gastroenterologia.
A partir desse ponto, o paciente pode estar convivendo com a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), quadro que exige avaliação médica e, em muitos casos, exames de imagem para confirmar o diagnóstico.
Entre os fatores que aumentam o risco estão obesidade, tabagismo, consumo frequente de álcool, alimentação com excesso de gorduras e ultraprocessados, estresse crônico e o uso prolongado de certos medicamentos.
A Organização Mundial da Saúde já apontou que o crescimento global do sobrepeso e a mudança no padrão alimentar explicam boa parte do aumento dos casos nas últimas décadas. No Brasil, o perfil é semelhante, com aumento claro da prevalência entre adultos acima dos 35 anos.
Sintomas repetidos que exigem olhar especializado
Existem sinais que mudam a gravidade do quadro e que não deveriam ser ignorados. Dor ao engolir, sensação de que o alimento trava no peito, vômitos frequentes, emagrecimento involuntário, anemia persistente e a presença de sangue nas fezes ou no vômito são considerados sinais de alarme pela Federação Brasileira de Gastroenterologia.
Nesses casos, a endoscopia digestiva alta passa a ser obrigatória, mesmo que o paciente tenha começado o quadro com uma simples queixa de azia.
Idade também pesa na decisão. Pessoas acima dos 40 anos com sintomas de refluxo há mais de cinco anos entram no grupo que precisa de investigação endoscópica, independentemente da intensidade da queimação.
O motivo é estatístico: é nesse grupo que se concentram as complicações mais sérias, incluindo a condição conhecida como esôfago de Barrett, uma alteração no revestimento do órgão que acontece como resposta à exposição prolongada ao ácido.
Estimativas publicadas em periódicos brasileiros apontam que cerca de 10% dos pacientes com DRGE crônica desenvolvem Barrett ao longo dos anos, e mais de 3 milhões de brasileiros podem ser portadores da condição, segundo dados compilados em revisões recentes na área.
O Barrett em si não causa sintomas novos, o que significa que o paciente pode continuar sentindo apenas a mesma queimação de sempre enquanto, no fundo, a mucosa do esôfago já passou por uma transformação relevante.
Conforme a análise de cirurgiões do aparelho digestivo em Goiânia, a importância do diagnóstico precoce está justamente em interromper essa cadeia de eventos antes que ela chegue à sua fase mais grave. Só a endoscopia com biópsia consegue identificar o quadro, o que reforça o motivo pelo qual tratar o sintoma por conta própria pode custar caro no médio prazo.
O erro de confundir alívio do sintoma com tratamento
O maior equívoco dos pacientes é tratar a queimação como um incômodo passageiro a ser resolvido com o que estiver à mão. A busca por receitas caseiras se intensificou nos últimos anos, e algumas dessas recomendações circulam em redes sociais e em sites de variedades sem qualquer respaldo científico.
Uma das mais curiosas é a crença de que a pasta de dente para queimação no estômago funcionaria como alternativa ao antiácido, ideia que se espalhou em vídeos virais e grupos de mensagens, mas que não tem validação clínica e pode, inclusive, agravar quadros digestivos quando ingerida.
O problema dessas soluções improvisadas não está apenas na ineficácia. Está no fato de que elas adiam a investigação. Enquanto o paciente procura alívio pontual em bicarbonato, leite, chás ou qualquer outro recurso caseiro, a agressão ao esôfago continua.
Médicos da área de gastroenterologia alertam que é exatamente esse comportamento o responsável pela maior parte dos diagnósticos tardios. Quando o paciente finalmente chega ao consultório, muitas vezes já apresenta esofagite erosiva, lesões ulceradas ou, em casos mais avançados, alterações celulares no revestimento do esôfago.
Os medicamentos de venda livre vendidos em farmácias também entram nessa lógica. Antiácidos e bloqueadores de ácido têm indicação clara e funcionam para aliviar episódios ocasionais. O uso contínuo por conta própria, porém, mascara a evolução da doença.
Um paciente que toma omeprazol todos os dias há dois anos sem nunca ter feito uma endoscopia pode estar convivendo com uma lesão silenciosa que só será descoberta quando sintomas mais graves surgirem, como dificuldade para engolir, emagrecimento sem causa aparente ou sangramento.
Quando o tratamento clínico não resolve e entra a cirurgia
A maioria dos pacientes com refluxo responde bem ao tratamento conservador, que combina mudanças de hábito, controle do peso, ajustes alimentares e medicação.
Elevar a cabeceira da cama, evitar deitar logo após as refeições, reduzir o consumo de café, álcool e alimentos gordurosos, e abandonar o cigarro são medidas que aparecem em todos os consensos brasileiros e internacionais. Os inibidores da bomba de prótons, quando prescritos por um médico, costumam controlar os sintomas na maior parte dos casos.
Existe, porém, um grupo de pacientes que não responde adequadamente ao tratamento clínico ou que depende de medicação contínua em doses altas para manter os sintomas sob controle. Para esses casos, a indicação pode ser cirúrgica.
A fundoplicatura laparoscópica, conhecida popularmente como cirurgia de Nissen, é o procedimento mais utilizado. A técnica consiste em envolver a parte superior do estômago ao redor da porção final do esôfago, reforçando a barreira antirrefluxo e devolvendo ao esfíncter a função que havia perdido.
A cirurgia também é indicada em situações específicas: esofagite grave classificada nos graus mais avançados, hérnia de hiato volumosa, refratariedade aos medicamentos, ou quando o paciente tem esôfago de Barrett com displasia.
Nessas condições, o controle do refluxo deixa de ser apenas uma questão de qualidade de vida e passa a ter impacto direto na prevenção do adenocarcinoma esofágico, tumor conhecido pela agressividade e pela baixa taxa de sobrevivência em cinco anos.
Segundo a avaliação de um cirurgião do aparelho digestivo da Unimed, o crescimento da cirurgia minimamente invasiva mudou o panorama dessa decisão. Procedimentos que há duas décadas exigiam incisões longas, internação prolongada e recuperação demorada hoje são realizados por videolaparoscopia, com pequenos furos no abdome, tempo de internação curto e retorno rápido às atividades. Isso reduziu a resistência dos pacientes à indicação cirúrgica nos casos em que ela é realmente necessária.
O que fazer diante de uma queimação que não passa
A recomendação que vale para qualquer quadro persistente é simples: não trate por conta própria o que se repete. Uma queimação ocasional depois de uma noite de excessos pode ser resolvida com bom senso.
Uma queimação que aparece toda semana, que acorda o paciente de madrugada, que obriga ele a dormir com travesseiros extras ou que responde cada vez menos aos remédios de farmácia exige avaliação profissional.
O caminho costuma começar pelo clínico geral ou pelo gastroenterologista. A partir da primeira consulta, exames como a endoscopia digestiva alta e, em casos específicos, a pHmetria esofágica ou a manometria podem ser solicitados para confirmar o diagnóstico e medir a intensidade do refluxo.
Com os resultados em mãos, o especialista decide se o tratamento será apenas clínico ou se há indicação de avaliação com um cirurgião do aparelho digestivo.
A diferença entre descobrir o problema no início e descobrir quando já existe complicação costuma ser medida em anos de sintoma ignorado. O esôfago não avisa com estardalhaço quando passa a sofrer lesões. Ele envia o mesmo sinal que enviava no começo, uma queimação que parece igual à do mês passado.
A atenção a esse sintoma repetido é o que separa um tratamento simples e eficaz de uma cirurgia mais complexa, feita por necessidade e não por escolha.










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